No Stress – Cabo Verde – Boa Vista

Estive na Ilha do Sal quando ainda nem existiam os TI por lá. Mas a da Boa Vista era novidade para mim, embora sinceramente não esperasse grandes diferenças.

Na Ilha do Sal a grande aventura para mim foi o mergulho (sobre isso ainda irei aqui escrever um dia). Desta vez, o mergulho com os miúdos atrás ia ser complicado, por isso a grande expetativa era mesmo uma semana de descanso total, pulseira no braço, comida e bebida sempre disponível, praia e piscina. Na verdade, isto era a expetativa do Ricardo. Claro que eu já estava a magicar formas de tornar este ilha um pouco menos propensa ao descanso.

Outra grande novidade era viajar de avião com 2 miúdos atrás. Just in case, contratamos um seguro de viagem que nos permitia reaver o dinheiro se, por qualquer razão não pudéssemos fazer a viagem.

E não é que uma semana antes os 2 miúdos apanham gastroenterite? Uma semana inteira de dieta muito restrita, vómitos, diarreia e até febre. Uma semana inteira em contato com a pediatra que, otimista como sempre, me dizia “vai ver que isso ainda passa mesmo antes da partida”. A febre e os vómitos até passaram rápido, mas a diarreia só para nos deixar em sobressalto a semana toda, passou precisamente na véspera. Ainda hoje relembro o festejo que fiz quando vi finalmente um cocó rijo (isto de ser mãe é só glamour).

Boa! Passamos à fase do cocó rijo. Bora lá fazer as malas. Eles adoram colaborar nesta tarefa. Escusado será dizer que os meus filhos não andam. Correm, saltam, pulam, fazem o pino e dão cambalhotas, mas andar de forma calma e tranquila não é a cena deles.

Não sei bem como aconteceu, mas na azáfama de separar roupa, o Diogo correu para um lado, a Mafalda vinda do seu quarto correu na sua direção e eis que chocam violentamente. A nossa meio kilo de gente, como é carinhosamente apelidada, por ser precisamente minúscula, sofreu o impacto de levar com o irmão e caiu desamparada para trás.

Pausa para um assustador  momento sem respirar, que mais pareceu uma eternidade, seguida de berros desalmados dela e do o irmão assustadíssimo por a ter magoado. O pai corre a agarrá-la e eu corro a ligar para a Saúde 24. A enfermeira faz-me um longo inquérito, cheio de recomendações e aspetos a estar atenta. Lá nos acalmamos todos e ainda arranjamos energia para terminar as malas.

Noite de grande ansiedade e vigilância à miúda e estávamos prontos para partir. Tão prontos que acordar às 6h nem foi complicado para os putos mais dorminhocos que conheço. Levantaram-se num ápice.

Primeira grande experiência, andar de Uber. Conseguimos um motorista simpático e com cadeirinha que nos tinha sido recomendado.

Partimos então para uma viagem  curta e sem atribulações. A TAP lá nos deu material de pintura para eles se entreterem, uma refeição comestível a bordo e tudo se fez.

Aterramos no aeroporto internacional Aristides Pereira, em Rabil, pequeno e tranquilo, como tudo neste ilha. Ao aterrar, a primeira perceção que tivemos, da janela do avião foi de uma ilha árida, pouco povoada e com algumas zonas desérticas, o que se veio a confirmar nos dias seguintes.

Esperar pelas malas é sempre uma ansiedade. Já viajei tanto e nunca tive malas extraviadas, por isso penso sempre “quando será o dia?”. Ainda não foi desta. Mas para eles, era simplesmente mais um motivo de excitação.

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Recebidas as malas, lá nos levaram para o hotel, numa viagem curta (+/- 10 minutos), até ao hotel escolhido, o Riu Karamboa.

https://www.riu.com/pt/hotel/cabo-verde/boa-vista/clubhotel-riu-karamboa/

A caminho do quarto, animados a ver o hotel, lá nos distraímos o tempo suficiente para a minha filha atirar a sua adorada Mémé para um pequeno lago.

Faço aqui uma pequena pausa para apresentar este elemento da família. A Mémé é uma ovelha de peluche do Ikea que já teve em tempos um ar fofinho e até dava música. Atualmente, tem um ar encardido e tristonho. Aparenta ter passado por um bombardeamento. Tem diversos buracos na cabeça e as patas semi-desfeitas, mas a Mafalda não a larga nem por nada. E claro, não dorme sem ela e recusa a substituta nova e igual que fui comprar. Deixo aqui uma foto da Mémé nos seus tempos semi-áureos (tenho vergonha de a mostrar como é atualmente).

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Desenrascados como somos, incumbimos ao irmão a árdua tarefa de resgatar a Mémé. Lá o ajudamos a entrar no lago acedendo por um pequeno caminho de terra. Qual super herói foi vê-lo sair de lá todo molhado, com a ovelha na mão, nós a rir, a irmã ansiosa, ele com as calças ensopadas e um ar algures entre o orgulhoso e o irritado.

Ainda fomos à praia, mas o tempo não estava grande maravilha. Optamos por conhecer o Hotel, jantar, tomar banho e finalmente dormir tranquilos.

No dia seguinte, comecei logo a preparar programas.

Primeiro, aproveitar a praia. O Hotel está na primeira linha de praia, como se quer. A temperatura da água é amena, mas não propriamente quente. O mar não é uma piscina das caraíbas, mas também não é demasiado revolto. Perfeitamente apto para uns mergulhos sem grandes aventuras.

O melhor mesmo é a beleza natural destas praias, ainda selvagens e a cor do mar. O mar de Cabo Verde, quando lhe bate o sol é daquele turquesa de cortar a respiração, especialmente quando em contato com a areia.

Infelizmente para nós, em Março o sol era relativo. Suficiente para fazer praia, mas apenas com uns soslaios desse maravilhoso azul que o sol provoca quando bate forte naquela água. O vento também é característico de Cabo Verde, especialmente de tarde e por vezes obrigou-nos mesmo a sair da praia.

Depois claro, as piscinas. Agradáveis, grandes, com música, animação e bares, para umas bebidas dentro de água.

Havia também uma boa piscina para os mais pequenos com parque infantil perto, trampolim e meses de ping pong.

O Hotel era ótimo, com bons serviços e principalmente gente simpática e bem disposta.

À noite, sempre muita animação. Música, alegria e boa disposição é o que recordo. Gostava apenas de ter ouvido mais música cabo verdeana, mas percebo a hospitalidade latente ao tocar músicas de vários países.

E a comida diversa e boa. Depois de uma semana de gastroenterite, os miúdos lá tiraram “barriga de misérias” de tudo quanto lhes apeteceu. E até a minúscula ganhou algum peso.

Havia ainda gatos, muitos gatos mesmo pelo hotel, com direito a casa e tudo, que os meus filhos teimavam em alimentar com restos de comida do buffet.

 

Mas o melhor (para mim claro) estava lá fora.

E lá arranjei 2 passeios.

  • Observação de Baleias

Informaram-nos que de Março a Maio cardumes de baleias Jubarte frequentam aquelas águas para se ter as suas crias e também em busca de alimentação.

Portanto, era de aproveitar.

Reservamos viagem no hotel e foram-nos buscar. Uma carrinha pequena, com ar já velhote e claro, sem cadeirinhas, já é uma fonte de entusiasmo para os miúdos.

A viagem até ao porto deu-nos um panorama geral da ilha. Árida e pouco povoada, mas bonita e essencialmente com bastante vida.

Já o porto, era bem parado. Na verdade só mesmo nós (e os turistas que vinham connosco) aguardávamos barco.

E lá veio ele. O ansiado barco. Colocamos os coletes e partimos. No início, a viagem estava tranquila. Fomos ouvindo a guia falar sobre as baleias que ali vão frequentemente em busca da sua comida preferida, Krill (plâncton), que abunda naquelas águas trazido pelas correntes.

Serviram-nos bebidas e tudo estava bem agradável. Começamos a entrar em alto mar e a ondulação não é brincadeira. Felizmente, não tenho propriamente um estômago sensível, nem os meus filhos e lá nos aguentamos bem.

 

 

O avistamento é que deixou um pouco a desejar. Elas lá acabaram por aparecer, fruto do esforço da tripulação em circular pelas águas em procura dos locais com maior probabilidade de ter baleias. Mas pouco se mostraram.

Se por um lado, ansiava por um mergulho gigante ali mesmo à minha frente, por outro, confesso que me apoquentava a ideia de ter um bichinho de algumas toneladas a fazer movimentar aquela água tão perto do barco.

Portanto, ver apenas um bocadinho de baleia a vir ao cimo e logo se esconder até nem foi tão mau quanto isso. E claro, para os miúdos já é mais uma história para contar.

Valeu bastante pelo passeio para quem, como eu, gosta de andar no meio do mar.

  • Passeio pela Ilha de Pick Up

Sair do conforto do hotel é para mim tão necessário quanto natural. Mas numa terra desconhecida há sempre algum receio, pelo que um bom guia é fundamental.

E nós tivemos um fantástico.

Quando o Paulo chegou, na sua pick up sentimos logo a empatia. A forma de lidar com os miúdos fez-nos perceber que também ele era pai, com o filho a viver numa outra ilha do arquipélago, como é habitual por estes lados, devido à escassez de trabalho. Na realidade, esta ilha, apesar de ser das maiores, é a menos povoada.

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O Paulo levou-nos a conhecer um artesã local, que apesar da sua deficiência física produzia peças belíssimas e típicas (tartarugas, golfinhos, baleias). Lá trouxemos, alguns animais para mais tarde pintar.

Depois, levou-nos a alguns pontos onde avistávamos a ilha e por fim levou-nos ao deserto de Viana.

O deserto de Viana é constituído por grão de areia clara misturada com grãos de areia escura (na verdade acho que a clara predomina bastante). Essa areia é trazida do continente africano pelos fortes ventos do oceano, produzindo uma verdadeira extensão do Saara em pleno oceano Atlântico.

Paramos e tínhamos uma imensidão de dunas a perder de vista, com alguma vegetação, aqui e ali.

Claro está, eu e o Diogo rapidamente rebolamos naquelas dunas de areia macia. Ainda caminhamos bastante, sentido a areia quente e macia nos nossos pés.

Eu, que adoro areia e água salgada, senti-me como um peixinho em água. E rebolei tanto quanto pude naquelas dunas.

Difícil foi sair de lá. Até porque adoramos também a sensação de não vermos absolutamente mais ninguém durante bastante tempo, como se aquelas dunas fossem nossas.

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Daqui partimos para outro ponto turístico, na parte norte da ilha.

Pelo caminho, o Paulo foi-nos falando da vida na(s) ilhas(s) (ele tem experiência em várias). Falou-nos da forma de levar a vida, despreocupada, mas também da dificuldade de conseguir emprego. Mostrou-nos a casa de família, por onde passamos e falava de tudo com um carinho que só quem é da terra pode sentir.

Fomos então a um ponto estratégico, de onde avistamos a praia de Santa Maria, assim designada porque um cargueiro espanhol, o Cabo Santa Maria, carregado de presentes para o General Franco naufragou ali, em 1968.

O areal extenso desta praia deserta, conjugado com o mar bem mais revolto, com ondas carregadas de espuma e com o cargueiro ali encalhado, preso na sua pequenez perante a imensidão de tudo o resto, fez-nos as delícias, especialmente do Diogo, que logo imaginou histórias de piratas e tesouros (não foi exatamente esse o caso, mas gostamos de os deixar dar largas à imaginação).

O Paulo avisou-nos que poderíamos descer e ver o cargueira mais perto, mas a viagem seria atribulada. Dispensamos. A vista dali era suficiente para nós e aquele ponto pareceu-nos perfeito.

A seguir, perguntou-nos para onde queríamos ir. Para o centro da Vila, claro, para umas comprinhas. Mas antes disso, dar um mergulho, longe das praias do hotel cheias de turistas.

E assim paramos numa pequena praia, a Praia D’Diante, junto ao Porto Diante, onde podemos testemunhar o que era sair da escola e ir diretamente para a praia.

Tudo diferente do que conhecemos. Crianças pequenas, saindo em grupos (sem adultos), para ir diretamente para a praia é para nós impensável. Pois ali, é o normal. E que bem me pareceu. Que liberdade, que alegria a daqueles meninos.

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Seguiu-se o tour para compras.

Os cabo verdeanos não são de andar atrás de nós. Pelo contrário, entramos em lojas, fomos cumprimentados e atendidos com simpatia, mas sem “perseguições”. O mesmo não se pode dizer de outros comerciantes a atuar por ali, vindos de outros países africanos, esses sim, bem persistentes.

Não é à toa que há duas expressões muito típicas de Cabo Verde, cuja veracidade podemos constatar nesta incursão:

Morabezza – palavra sem uma definição ou um sinónimo adequados; é daquelas palavras que é exclusiva de um povo. Mas está ligada à qualidade de ser amável, atencioso, “amorável”, sinónimos facilmente aplicáveis a este povo;

No stress – das expressões que mais ouvi e que melhor caracteriza este povo; não condiz comigo, eu que sou híper stressada e a mulher dos 1000 ofícios, mas realmente deixa-me a pensar que tenho muito a aprender com este povo.

E que lá hei-de voltar!

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