Da série de outros devaneios… (hoje deu-me para isto, deve ser da quadra natalícia)!
Tive uma infância sem Natais em família, sem amor e alegria. Os Natais eram sombrios. Recordo-os com tristeza e até com algum receio, como se preferisse que não chegassem. Porque tinha sempre expectativa que algo mudasse, mas sabia que isso não iria acontecer. Como se não quisesse ter esperança por ser certa a desilusão.
Havia presentes e doces, mas quando se tem 6 anos e se está sozinha isso pouco ou nada conta.
Foi preciso chegar à adolescência para descobrir o verdadeiro Natal. Para descobrir o amor, o aconchego da família e da comidinha quente acabada de fazer. Para descobrir que mais giro do que abrir presentes é brincar com eles. É embrulhar um pequeno relógio numa caixa de aspirador cheia de papéis. É oferecer uma varinha mágica a quem espera um joia que cuidadosamente se escondeu. É ouvir músicas de Natal e decorar a casa com alegria. É fazer doces em família, mesmo que nem sempre sejam as iguarias mais perfeitas do mundo. Descobri-o com uma família que não foi aquela onde nasci, mas que já era a minha nessa altura.
Todos os dias me orgulho do caminho que escolhi para a minha vida. Seria tão mais óbvio outro caminho qualquer para aquela menina tristonha que ninguém me poderia sequer recriminar. Mas almejei sempre mais e melhor e isso foi o que me fez chegar onde estou hoje e à família linda que tenho.
Por isso, celebro o Natal em toda a sua plenitude. Ou no que ela é para mim. E sim, há algo de verdadeiramente egoísta nisto. Pois não o faço só pelos meus filhos.
É claro que adoro ver a sua alegria ao fazer bolachas para o Pai Natal e descobrir no dia seguinte que ele as comeu, ao visitar feiras e mercados de Natal, ao delirar e brincar com os presentes que o Pai Natal traz. Mas também o faço para proporcionar algum conforto e carinho à menina que já fui. Faço-o para me compensar. E não me envergonho disso. Porque sinto genuinamente que mereço.
Acredito que a felicidade é um caminho que percorremos todos os dias. Já fraquejei muito neste percurso. Este ano então, fartei-me de fraquejar. Deixei que a tristeza, o sentimento de impotência e as lamúrias tomassem conta de mim. Felizmente também tive sempre quem me fizesse levantar, mas perdi tempo. E o tempo não para!
A felicidade constrói-se. Não podemos esperar que chegue repentinamente e se instale em nós.
Por isso, deixo o apelo para que celebrem. O que quer que seja. O nascimento do menino Jesus, a chegada do Pai Natal, a passagem de ano, o vosso nascimento, o Halloween, o Carnaval, à Páscoa ou o Ramadão.
Não interessa se gostam de sonhos, rabanadas ou brigadeiros.
Se comem perú, bacalhau ou pizza.
Se oferecem presentes da Cartier ou trabalhos manuais feitos por vós.
Nem tão pouco se preocupem com a forma como os outros celebram o que quer que seja que celebrem. Nem com o que comem, nem com o dinheiro que gastam.
A vida merece ser celebrada e todos os motivos são poucos.
Um Feliz Natal a todos que amanhã estarei recolhida e rodeada de quem mais gosto! A comer doces, ouvir músicas de Natal e desembrulhar presentes. Porque nós merecemos!
